segunda-feira, 20 de junho de 2016

NÃO ME ABANDONE JAMAIS, UMA RESENHA MUITO DIFERENTE



Essa é a resenha da editora Companhia das Letras para o livro Não me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro:

Kathy H. tem 31 anos e está prestes a encerrar sua carreira de "cuidadora". Enquanto isso, ela relembra o tempo que passou em Hailsham, um internato inglês que dá grande ênfase às atividades artísticas e conta, entre várias outras amenidades, com bosques, um lago povoado de marrecos, uma horta e gramados impecavelmente aparados. No entanto esse internato idílico esconde uma terrível verdade: todos os "alunos" de Hailsham são clones, produzidos com a única finalidade de servir de peças de reposição.
Assim que atingirem a idade adulta, e depois de cumprido um período como cuidadores, todos terão o mesmo destino - doar seus órgãos até "concluir". Embora à primeira vista pareça pertencer ao terreno da ficção científica, o livro de Ishiguro lança mão desses "doadores", em tudo e por tudo idênticos a nós, para falar da existência. Pela voz ingênua e contida de Kathy, somos conduzidos até o terreno pantanoso da solidão e da desilusão onde, vez por outra, nos sentimos prestes a atolar.”
Capturado em - http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=14068 - 12/06/16

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            Vi críticas e opiniões de várias pessoas a respeito desse livro, desde a que me fez comprá-lo até as que, caso eu tivesse lido antes, talvez teriam me convencido a não o fazer. O fato é que comprei e li o livro e, durante e depois da leitura, algo me incomodou demais, e esse algo talvez esteja em uma associação que não fiz intencionalmente, que me deixou seriamente tocada e que provavelmente o escritor não teve a intenção de passar a ninguém com sua história. Associei a situação de Kathy H. e dos outros clones à nossa situação, como seres humanos, em nossos corpos, em nossas vidas.

            Deixa ver se consigo explicar melhor: Na primeira fase do livro, Kathy está em Hailsham, uma “escola” ao mesmo tempo agradável e intrigante instalada em espaço amplo, porém limitado. Lá, enquanto aprende amenidades como pintura, desenho e artesanato, ela vai aprendendo também a conviver com os outros e consigo própria. Essa segunda aprendizagem é mais complicada e não se concretiza nunca. Todos são alunos de adultos chamados Guardiões que, embora pareçam professores e pareçam muitas vezes ter interesse genuíno pelo seu bem-estar, estão sempre escondendo alguma coisa, dizendo meias verdades, contando histórias ao mesmo tempo realísticas e fantasiosas impregnadas com seus preconceitos e suas segundas intenções nem sempre claras, aparentemente, mesmo para eles próprios.

            Essa primeira fase é a infância de Kathy, Ruth, Tommy e seus amigos, e a mim pareceu muito com a infância de todos nós. Nosso corpo infantil é como Hailsham. Acordamos nele sem termos estado - ou sem nos lembrarmos de termos estado - em nenhum outro lugar antes disso. Não temos referência. Aceitamos esse corpo e nele permanecemos porque não temos opção. Aceitamos isso como natural porque nunca conhecemos outra realidade. As limitações de nossa Hailsham mal chegam a ser percebidas por nós por causa da nossa ingenuidade e do que dizem nossos “Guardiões”, que sabem pouco mais do que nós.
Aos poucos, vamos descobrindo algumas coisas sobre nossa Hailsham; umas parecem boas, outras são decididamente estranhas, inquietantes e até constrangedoras. Nossos “Guardiões” nos ensinam trivialidades como se fossem importantes e, dentro de limites estabelecidos, nos permitem explorar Hailsham e procuram fazer com que nos sintamos em casa nesse nosso espaço restrito. As “aulas” que nos dão sobre o corpo que habitamos vêm envolvidas em preconceitos e em uma “ciência” cuidadosamente selecionada. Omitem informações, dizem meias-verdades e, principalmente, ocultam o fato de que eles mesmos não sabem muito sobre o que somos realmente. Exatamente como acontecia com os Guardiões de Hailsham.
Somos um corpo que, ao longo dos anos, vive entre outros corpos, todos diferentes, todos semelhantes, todos estranhos, todos misteriosos, todos Hailsham. Não escolhemos o corpo que somos nem quais outros corpos dividirão conosco o mesmo espaço. Dentre esses corpos, sem que possamos decidir e racionalizar totalmente essa escolha, ficamos mais próximos de uns, mais distantes de outros, ignoramos muitos e de alguns nos afastamos com aversão. Conhecemos a nossa Hailsham quase tão mal quanto conhecemos a Hailsham dos outros.
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Na segunda parte do livro os personagens centrais não são mais crianças. Os Guardiões não estão mais por perto. De Hailsham vão para o Casario. Acreditam que não são mais inocentes porque são inocentes demais para perceber o que são. Aos poucos se tornam mais ousados; pensam que são mais livres. Não são. Encontram outros personagens como eles mas diferentes, que vieram de outros lugares como Hailsham mas diferentes. Começam a explorar com mais intensidade e mais confusão a sexualidade que descobriram nos últimos tempos de Hailsham. Confundem o sexo com os sentimentos e se relacionam entre si de forma confusa, por vezes tomando atitudes impensadas das quais se arrependem e cujas consequências nem sempre têm volta. Graças a essas confusões é Ruth e não Kathy que se torna a namorada de Tommy, por mais que o "erro" pareça óbvio desde o começo.

Em meio aos encontros e desencontros, não são felizes nem infelizes o tempo todo. Têm momentos de maior ousadia e momentos de angústia, de arrependimento, de confusão. Exploram mais longe o espaço que habitam, mas não tão longe que se afastem do que são. Amam, brigam, fazem as pazes, cometem erros que corrigem ou não; não sabem lidar com os próprios sentimentos. Sonham, mas não deixam que os sonhos sejam muito altos porque não sabem como realizar sonhos. Veem os outros partirem, um a um, para a próxima etapa e sabem que logo partirão também.

Não pude, nesse momento da leitura, evitar a comparação com a nossa adolescência. Nessa fase, como os personagens no Casario com relação aos Guardiões e aos colegas dos quais se afastaram, não nos sentimos mais tão dependentes da nossa família, não estamos tão convencidos quanto aos conhecimentos que nossos pais nos transmitiram e já aceitamos que sua infalibilidade era apenas uma fantasia nossa. Mas, assim como Kathy e seus amigos não se desligam totalmente do que viveram em Hailsham e do que os Guardiões transmitiram, nós, na adolescência, ainda refletimos o que aprendemos de nossa família. Não podemos evitar.

Como Kathy, Ruth e Tommy no Casario, na adolescência nós também vamos mais longe e pouco percebemos os limites que nos aprisionam. Conhecemos pessoas que vêm de famílias diferentes, com essas pessoas exploramos novas experiências e novos sentimentos. Os outros se tornam nossos rivais, nossos aliados e nossos modelos. O sexo e as relações amorosas são confusos e, via de regra, plenos de ousadias desmedidas, atitudes impensadas, alegrias, tristezas e arrependimentos. A adolescência é uma fase turbulenta e passageira da qual alguns saem mais cedo do que outros e alguns saem mais amadurecidos do que outros.

O Casario, para os personagens, foi uma Hailsham diferente, menos abstrata, mais intensa e mais perturbadora. Nosso corpo, na adolescência continua sendo a mesma prisão da qual nem sempre temos consciência e da qual não podemos sair, mas se torna diferente. Ao mesmo tempo fascinante, incômodo, estranho, agradável e perturbador. O corpo muda como muda o ambiente em que vivem os personagens e há muita semelhança entre esses ambientes que mudam mas são os mesmos e esse corpo que é o mesmo mas muda tanto que parece outro.

O tempo de decidir passa rápido para os personagens assim como a adolescência passa rápido para nós. Para eles - Como para nós - chega a hora de assumir seus lugares dentro dessa estrutura que não conhecem totalmente mas na qual foram inseridos e da qual fazem parte. Não há fuga possível, não há conhecimento suficiente sequer para idealizar uma possibilidade de fuga que seja realmente fuga e não apenas simulacro. Uns mais cedo, outros um pouco mais tarde, todos nós nos tornamos adultos. Os ex-alunos de Hailsham saem do Casario e se tornam Cuidadores, nós saímos da adolescência, nos tornamos adultos e, na maioria dos casos, nos tornamos também essa espécie de “Guardiões-cuidadores” que são vulgarmente chamados de pais.
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Quando os personagens do livro se tornam Cuidadores tudo muda sem que nada mude. Eles se tornam de certa forma autônomos, mas têm uma função a cumprir com horários e lugares estipulados.

Kathy, Ruth e Tommy, como todos os outros clones, seguem o curso natural do qual não tiveram forças suficientes sequer para tentar para fugir. Cada um deles se torna Cuidador por um tempo e depois começa a fazer as doações. A duração e o sucesso da fase de Cuidadores pela qual passam os personagens do livro parece estar diretamente ligada à eficiência e boa vontade que demonstram nessa atividade. 

Kathy é uma Cuidadora especialmente bem-sucedida, por isso consegue adiar um pouco sua passagem para a fase seguinte. Mas sua habilidade como Cuidadora se deve ao seu caráter, já demonstrado diversas vezes ao longo do livro, não a qualquer tipo de esforço ou desejo de adiar o tempo em que ela própria precisará de um Cuidador. Para ela, ser Cuidadora por mais tempo do que a maioria, não parece ser uma recompensa já que seu sucesso não a livra de ser o que é, não a livra de seu destino e não a livra de perder as pessoas das quais cuida, nem mesmo as duas pessoas que mais importaram para ela: Ruth e Tommy.

Toda ousadia que tiveram no final das contas não passou de um arremedo de ousadia, mais para aceitação do que para fuga. Num último momento de valentia e de esperança, os três descobrem o endereço de Madame - uma mulher “importante” que aparecia em Hailsham com frequência e levava consigo os melhores trabalhos dos alunos sem que ninguém soubesse com que finalidade. Eles fazem a viagem até lá. Isso exige um certo esforço porque Ruth e Tommy já tinham começado as doações. Na casa encontram também uma antiga Guardiã e ambas se revelam em toda sua impotência. 

Então, com suas tênues esperanças perdidas, Ruth e Tommy se entregam ao destino e, cada um na sua vez, Concluem. Para Kathy não há alegria, não há sequer uma tristeza realmente profunda. Ela se mostra quase apática, totalmente resignada com o que não tem o poder de mudar.

Daí o paralelo é bastante óbvio. Nossa fase adulta é tão controlada e plena de obrigações quanto a fase de Cuidadora de Kathy e somos, em geral, tão apáticos e tão resignados quanto ela porque também sabemos que não importa o quanto nos esforcemos e o quanto obtenhamos sucesso como “Guardiões-cuidadores”, não evitaremos o inevitável. Nossos filhos (de quem somos Guardiões) seguirão seus caminhos. Não evitaremos que nossos pais (de quem em algum momento passamos a ser Cuidadores) “concluirão”, e nossos amigos, em geral Guardiões e Cuidadores como nós, também como nós, estarão inseridos e perfeitamente adaptados ao curso natural das coisas. 

Talvez percebamos que somos Hailsham, talvez percebamos que somos parte da Hailsham de nossos filhos, talvez percebamos que nossos pais e nossos amigos são outras Hailsham, mas não conseguimos perceber que Hailsham é uma prisão.
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E, finalmente os personagens se tornam aquilo que nasceram para ser. Finalmente se tornam Doadores. E nessa fase vão perdendo órgãos do corpo a intervalos pequenos, e vão se tornando debilitados e enfraquecidos até que, em uma última doação, eles Concluem. Entre uma doação e outra, todos têm seus Cuidadores que podem ser mais ou menos eficientes na tarefa de tornar esse período o menos desconfortável possível, sem, no entanto, conseguir evitar o fim.

Essa fase é incrivelmente semelhante à nossa velhice. Sem data precisa para iniciar, mas com datas relativas até que bem definidas, cada um de nós se torna velho - se não morrer antes - e começa a perder partes importantes do corpo. A saúde, a força, o vigor, a aparência, vão esmaecendo. Nós doamos a nós mesmos sem termos direito a escolha. Ou, em outros termos, vamos nos devolvendo aos poucos ao ambiente em que vivemos assim como os personagens do livro vão se devolvendo à sociedade que os fabricou para isso.

Ao final, com mais ou menos doações, assim como os personagens do livro, nós também “concluímos” e esse fim é aceito sem protesto porque é natural, parte especialmente essencial do ciclo da vida. 

Como os personagens, resistimos, quando o fazemos, apenas para ficar um pouco mais de tempo. Ou então inventamos fantasias para driblar nosso medo da “conclusão” da qual ninguém retorna. Nunca uma genuína rebeldia. Estamos tão inseridos e aceitamos tão bem a ordem natural das coisas que na maioria das vezes fechamos nossos olhos pela última vez com resignação. 

Num último suspiro, pela vida que tivemos, agradecemos aos fantasmas que criamos para que eles dissessem por nós, porque sozinhos não seríamos capazes de dizer, que a vida vale a pena. E como disse Shakespeare: o resto é silêncio.












quinta-feira, 21 de abril de 2016

Meu mano filósofo


Estava pensando...

A vida abstrai coisas Legitimadas pela própria abstração
Poeticamente morreríamos serrados em um contexto
Fisicamente morreríamos à procura desse contexto
A vida contextual acua a visceral

sábado, 20 de fevereiro de 2016

“Você não é seu emprego!” - Tyler Durden do filme Clube da Luta


 

Não acho nem que se possa dizer que "Você não é o seu trabalho" nem que você o é. Não somos nenhuma das atividades que praticamos, nem sequer somos a soma de todas elas. Não somos melhores do que qualquer profissão ou atividade também. Somos a soma do que fazemos, do que fazemos com o que fazemos, do que vemos, ouvimos, sentimos, sonhamos, desejamos e do que fazemos com tudo isso. E mais, cada um desses aspectos tem influência diferente em diferentes pessoas. Um exemplo - usando o trabalho porque é o tema - é que para alguém que tem um trabalho mais prazeroso, escolhido mais por vocação do que por pragmatismo, fatalmente esse trabalho vai ter uma influência diferente no seu todo do que o trabalho terá para aquele que tem um trabalho menos prazeroso e mais pragmático. Nem dá (eu acho) pra dizer que o trabalho terá mais influência no primeiro do que no segundo, o máximo que se pode inferir é que serão influências diferentes. E mesmo esses dois exemplos puros podem variar de pessoa para pessoa. Enfim, somos idiotamente complexos!