sábado, 3 de setembro de 2011

Dinheiro





"O dinheiro é um dos fins para se viver feliz: os homens transformaram-no no único fim". Anatole France


Uai! Eu pensava que dinheiro fosse um meio, não um fim. O que parece mais correto é que o dinheiro sirva como meio para se viver melhor; para a pessoa ter uma habitação melhor, se alimentar melhor, ter melhores cuidados médicos, se vestir melhor; ter, enfim, melhor qualidade de vida. Se o dinheiro passa a ser um fim, nada do que se pode comprar com ele tem valor maior do que ele mesmo, então o homem se torna um acumulador de dinheiro, gelado e insensível como um cofre; e como um cofre incapaz de ser, ou de saber o que é ser, feliz.

Sonhos





"Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma, todo o universo conspira a seu favor. – Goethe"


Conspira nada! Tantos sonhos são frustrados mesmo e apesar dos esforços do sonhador em torná-los realidade! O universo não conspira, o universo não sabe da nossa axistência mais do que a praia sabe do grão de areia. Sonhos tem certamente maiores chances de se tornarem realidades quando o sonhador trabalha por isso; é claro que se alguém sonha e não faz nada ou não se esforça suficientemente o sonho só se realiza por rara e aleatória coincidência (mas ainda assim às vezes se realiza!). A ação e a vontade não são por si sós capazes de realizar todo sonho. Em alguns casos podemos lamentar os lindos sonhos que não puderam ser concretizados pelos sonhadores apesar de todo esforço: Betinho trabalhou ativamente pelo sonho de acabar com a fome e morreu sem conseguir realizá-lo; mas por outro lado podemos nos alegrar porque houe sonhadores esforçados não conseguiram a realização dos seus sonhos: Hitler foi um sonhador que se lançou com toda a força da sua (demente) alma à realização dos seus sonhos. Pode alguém argumentar que Betinho deixou frutos e que muita gente hoje trabalha para acabar com a fome por influência dele, daí eu diria que Hitler também deixou frutos e que, infelizmente, também tem pessoas que trabalham em prol da “superioridade” ariana.

Quem sou





"Eu sou eu e minha circunstância". - Ortega y Gasset.


Com essa frase concordo completamente! Primeiro houve algo que não podemos explicar e que veio conosco junto com a vida; para mim esse algo primordial é a nossa herança genética aliada ao que captamos da vida enquanto estávamos no útero; alguns recorrerão à metafísica e à teologia para explicar. Mas, esteja eu certa ou não, o fato é que esse algo ainda não é o EU porque o EU se constrói a partir da relação com o mundo e com as pessoas; talvez esse algo possa ser chamado de um “proto-eu”, mas nunca, na minha opinião, podemos dizer que uma pessoa é uma tábula raza, como quis John Locke. Minha circunstância são minhas relações mediatas e imediatas com as coisas e as pessoas. Essas relações, ou experiências, são passadas pelo filtro dos sentimentos e do modo de ver e de interpretar, isso pode ser talvez chamado de personalidade. Esse filtro (ou personalidade) muda um pouco a cada experiência porque é aquele proto-eu somado a todos os acrescimos anteriores à experiência atual; e a esperiência atual será parte do filtro pelo qual passará a próxima experiência. É por isso que a gente está sempre se modificando, é por isso que o EU é um processo que só se conclui com a morte.

Bom Humor





"O bom humor espalha mais felicidade que todas as riquezas do mundo. Vem do hábito de olhar para as coisas com esperança e de esperar o melhor e não o pior." - Alfred Montapert

Acho que o bom humor pode também ter outras razões, como por exemplo dar valor ao que se tem e, porque fomos beneficiados com essa injustiça, esquecer como na vida a distribuição de bens é injusta. Outra razão para o bom humor pode ser a opção de rir da vida e de si mesmo porque se percebe que não há mais nada que possa ser feito. E tem ainda a possibilidde de o motivo ser a empatia: sei, porque sofro, o quanto sofrem os meus irmão, daí que faço de conta que estou feliz para não sobrecarregar os que já tem dores suficientes sem precisar arcar com as minhas. E é engraçado como fingir que esta feliz faz bem! A gente finge e se aplica no fingimento, e chega um momento em que a gente acredita na própria mentira e fica feliz mesmo. Isso já me aconteceu muitas vezes, por isso não posso, a não ser mentindo, me definir como uma pessoa sincera.

sábado, 8 de maio de 2010

LENDO UMA FRASE DE KANT




“Duas coisas me enchem a alma de crescente admiração e respeito, quanto mais intensa e freqüentemente o pensamento delas se ocupa: o céu estrelado sobre mim e a lei moral dentro de mim.”

Kant está, nessa frase, maravilhando-se com duas miragens. Nenhuma das duas coisas existem realmente ou existem sempre como nos aparece no momento, vejamos por que: o céu estrelado que vemos é todo um aglomerado de luz, belíssimo sem dúvida, que chega a nós naquele momento. Algumas dessas luzes viajaram centenas de anos, outras viajaram dezenas e, de fato, é possível que nenhuma delas seja nesse momento o que sua fonte nesse momento é; algumas das luzes que vemos pertencem a estrelas que já se apagaram há séculos, portanto, olhar para o céu é mais do que, como alguém já disse, olhar para o passado; é na verdade olhar para diversos passados ao mesmo tempo e para um presente que nunca existiu. 
O fato é que aquilo que vemos quando olhamos para o céu não é absolutamente aquilo que está lá, e não é nem mesmo, pela diferença de distância dos vários corpos celestes com relação a nós, o que um dia lá esteve; quando vemos duas estrelas lado a lado uma delas pode na verdade ter se apagado antes de a outra surgir; ou seja, as duas estrelas que vemos ao mesmo tempo podem não ter existido ao mesmo tempo; e isso certamente pode ser verdade sobre muitas das estrelas que vemos, não sobre apenas duas. Na verdade então, olhar para o céu é olhar para uma mentira.
Quando eu era criança minha mãe considerava moralmente aceitável e recomendável que os pais batessem nos filhos, apanhei dela várias vezes por conta disso. A lei moral que minha mãe tinha dentro dela naquela época dizia que se deve bater nos filhos sempre que eles se comportam mal. Quando me batia ela não sentia estar violando sua lei moral, pelo contrário, estava me educando e fazendo a sua parte para que eu me tornasse uma pessoa de bem. No entanto, quando tive meu filho, vários anos depois da última surra, minha mãe havia mudado e achava que não se deve bater nos filhos ou em criança nenhuma que esteja sob nossos cuidados. 
Em todas as vezes que minha mãe me bateu ela sentiu que estava agindo corretamente e de acordo com a moral que tinha dentro de si, mas, se, nas vezes em que meu filho passou as férias com ela, ela tivesse batido nele, então ela teria certamente sentido que estava agindo contra a moral que existia dentro dela naquele momento. Ou seja, a moral dentro de minha mãe mudou com o tempo e, pensando bem a meu respeito, sei que posso achar exemplos de mudanças do mesmo tipo que ocorreram também em mim e acho que o mesmo pode acontecer com muitas pessoas, se não com todas. 
Tem gente que adora pescar, faz da pesca um esporte, ensina essa paixão para os filhos e sempre que está cansado, estressado ou aborrecido com as muitas atribulações do dia a dia, se encontra oportunidade para isso, a pessoa pega sua vara de pesca, suas iscas, suas roupas adequadas e vai se divertir e relaxar pescando. Nunca passaria pela cabeça dessa pessoa que pescar é ir contra a moral que está dentro dela, não existe isso; a moral que existe dentro dessa pessoa não a impede e nem mesmo sussurra de maneira alguma contra essa sua atividade que é um esporte, um passa-tempo, uma maneira de relaxar e desestressar. 
A moral que tenho dentro de mim jamais me permitiria pescar a não ser que eu estivesse em situação limite, prestes a morrer de fome ou a ver alguém morrer de fome e sem outra possibilidade de ação que não fosse essa. Se eu pegasse uma vara e uma isca e jogasse na água para esperar que um peixe agonizante saísse brilhando e se debatendo de dentro d’água a moral que tenho dentro de mim berraria em alto e bom tom que estou cometendo um crime, um assassinato, uma injustiça, um aviltamento, um desrespeito a uma vida. A moral que tenho dentro de mim é diferente da moral que as pessoas que gostam de pescar têm dentro de si, e se pensar bastante tenho certeza de que acharei vários exemplos que provam que a moral que as pessoas têm dentro de si difere de pessoa para pessoa mesmo quando elas são fisicamente e psicologicamente saudáveis e perfeitas.
Daí que admirar a moral que existe dentro de mim acaba por ser admirar uma mentira tanto quanto admirar o céu estrelado é admirar uma mentira. Essa moral que tenho dentro de mim agora pode não ser a moral ideal, pode não ser a moral correta e eu não tenho como saber disso, é apenas a minha moral e a minha moral desse momento em que estou vivendo agora, não há como saber, em muitos pontos e situações, se é assim que vou sentir necessidade de agir sempre, não dá para saber nem mesmo se é assim que todas as pessoas deveriam agir. Se minha noção de moral, ou a moral que tenho dentro de mim como diz Kant, pode mudar de mim para mim mesma com o tempo e de mim para com as outras pessoas dependendo das situações, então nunca posso ter certeza sobre ela, por que então admirá-la tanto?
Kant mandou colocar essa frase em seu túmulo, mas é uma frase fraca; ele está na verdade admirado e respeitosamente deslumbrado por duas mentiras... ou por duas miragens.

sábado, 13 de março de 2010

De si mesmo

CHEGA-SE MAIS FACILMENTE A MARTE DO QUE AO NOSSO PRÓPRIO SEMELHANTE. - JOSÉ SARAMAGO

          Isso porque estamos acostumados a nunca tentar uma aproximação desarmada, temos medo; e igualmente não estamos acostumados a aceitar as tentativas de aproximação que as pessoas porventura façam diante de nós, temos medo. Armados com uma indiferença estudada, armados com um campo de força a prova de ternura, barramos qualquer possibilidade de aproximação, temos medo. E graças a esse medo, graças a essa barreira, graças a esse hábito de isolamento, acabamos por desconhecer não apenas o próximo como até mesmo a nós mesmos.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Cada palavra é uma obra poética – Jorge Luís Borges



Pegue uma palavra e namore essa palavra. Pesquise sua história, ensaie seus significados, estude suas possibilidades, veja suas possíveis e improváveis associações. Brinque com seus sons, vista-a de várias cores, dance com suas formas. Pegue uma palavra e sinta suas palpitações, ouça seus sorrisos e suas lágrimas, olhe no fundo dos seus olhos e perceba sua ternura ou seu terror. Você verá então que Jorge Luís Borges estava certo. Muito certo...